Daniel como sempre fazia, saiu à noite para andar no parque ao lado de sua casa. Ali ficava absorto em seus pensamentos e reflexões enquanto ouvia músicas em seu fone de ouvido mais amado.
Adorava noites como aquela, de clima ameno em que era possível ver bem a lua, naquele dia estava cheia. "Lua cheia", pensou, "ando me escondendo do mundo como se fosse eu o próprio lobisomem de todas as histórias contadas, meus conflitos rugem em mim como uma fera, tentando devorar ninguém além de eu mesmo, isso é solitário e monótono", pensou, sacudiu vagarosamente a cabeça, em negação e acendeu um cigarro.
"Sério que vai fumar aqui?" Interrompeu-o uma voz, até então desconhecida.
Daniel levantou os olhos e nem as lentes grossas de seus óculos puderam impedi-lo de ser ofuscado por tamanha beleza vindo daquela mulher.
Daniel: Eu... Só estava... relaxando... é, relaxando, algum problema, madame? (Usou o tom de ironia que lhe era peculiar.)
Mulher: Problema? Hum! Para mim não, mas olha a beleza dessa paisagem, é melancólico ver alguém destruir-se frente ao que é um extremo motivo para se desejar viver, para ver mais e mais todos os dias paisagens como essa e contemplar todas as reflexões filosóficas que algo assim desperta em nosso espírito.
Daniel: Dona moça, esse cigarro me fazia companhia até este momento, nas minhas reflexões habituais, mas já que está aqui, eu o apago agora, junte-se a mim nesse banco, abaixo desse luar e me conte, como é que iniciou essa empreitada para salvar a vida de fumantes? (riu-se divertido.)
Sofia: Sofia, meu nome é Sofia. Você aí desse jeito, está parecendo um detetive de filme noir, quase que eu vejo essa cena em preto e branco: você, o banco, a lua, a paisagem, a cena em que você está quebrando a cabeça antes da cena final, o desfecho épico do mocinho com a sacada genial.
Daniel: Então tenho cara de mocinho, logo tenho cara de galã (disse em um meio sorriso, encarando Sofia nos olhos, que ficou desconcertada.)
É um prazer te conhecer Sofia, me chamo Daniel.
Sofia: O prazer é meu, Daniel. Mas me diga: o que um detetive de filme noir investiga em um banco de parque às onze da noite?
Daniel: O crime perfeito, Sofia. A monotonia. É um caso sem pistas e o culpado insiste em não aparecer.
Sofia: Talvez você esteja procurando o culpado no lugar errado. Filmes assim sempre têm uma pista escondida na sombra de quem investiga.
Daniel: (suspira, voltando ao pensamento inicial) E se a sombra for eu? E se eu for um lobisomem, um que se esconde porque tem medo de devorar o que há de bom ao redor?
Sofia: Engraçado... Eu olho para você e vejo um homem de alma antiga e óculos grandes, não uma fera. Sabe qual é o problema dos lobisomens, Daniel?
Daniel: Qual? Eles não têm plano de saúde?
Sofia: (ri) Não. É que eles se esquecem de que a lua cheia serve para iluminar o caminho, não só para causar a transformação. Você apaga o cigarro, mas não consegue apagar esse brilho de curiosidade que restou nos seus olhos.
Daniel: Você é sempre assim? Tão... luminosa?
Sofia: Só quando encontro alguém que insiste em ficar no escuro por falta de companhia.
Daniel: (olhando para o cigarro apagado e depois para ela) Sabe, Sofia... talvez o desfecho épico não precise de uma sacada genial.
Sofia: E o que seria, então?
Daniel: Talvez seja só o mocinho decidindo caminhar um pouco mais, sem a fumaça no meio do caminho. Aceita continuar o passeio?
Sofia: Só se você prometer que o lobisomem vai ficar na coleira por hoje.
Daniel: Prometido. Ele está exausto de si mesmo, de qualquer forma.