Meu Recanto - Docke Lima
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Um belo dia um igualmente belo rapaz acordou de um sonho. Fez sua barba, escovou seus dentes, vestiu-se, colocou seu paletó dobrado no antebraço, abriu a porta de seu quarto e caiu em um abismo, que parecia não ter fim, todavia tinha.

Chegou assustado à um porão escuro, um breu que cheirava a queimado de algo familiar, ele achando tudo muito sinistro, pensava: Ora, a porta de seu quarto dava para um corredor de sua residência nada irreal como aquilo. Queria compreender o que seus olhos não viam, embora à sua frente o que seu cérebro tentava decifrar era ao mesmo tempo tão verdadeiro e tão impossível.

Mal podia enxergar, e não poderia realmente se não houvesse uma pálida luz, vinda de não se sabe onde, a qual decidiu seguir por ser a única pista de que poderia encontrar alguém ou alguma saída.

Ouviu um tímido barulho, como se alguém impaciente, mas metódico, batesse o pé no ritmo do tic tac de um relógio, curiosamente, batidas que percebeu estarem sincronizadas ao seu relógio de pulso. Um arrepio percorreu-lhe o braço esquerdo enquanto encarava nele, seu adereço no qual toda vida viu as horas passarem.

De repente, ouviu sussurrar uma voz:

Por que ele parou? Por que? Por que ele parou? Não sei o porquê… Não sei, não sei…

Sem entender nada, agora Edson se arrepiou ainda mais com aquelas vozes finas, que pareciam cuspir pequenas rajadas, de alguma coisa. Sabia que aquilo estava mais sinistro que sua mente impressionada pudesse admitir, temeu enlouquecer, ou pior, que já estivesse louco.

De repente, o que ele viu ser um gato branco, grunhiu de forma tão feroz que parecia estar tão irritado quanto um gato que tivesse perdido suas seis outras vidas. Entretanto talvez ele soubesse a saída. Edson correu atrás do gato, o mais rápido que pôde, até perceber que não havia sinal do gato em qualquer lugar.

Parou então para observar onde estava, viu-se em uma sala, no centro desta, uma escada redonda, com não mais do que cinco degraus que levavam a uma estrutura elevada, Em cima uma cadeira aparentemente confortável e sentando nela a figura mais sinistra que ele havia visto, a coisa mais medonha como um todo, aliás.

Calça social cinza, camisa branca abotoada somente até o início do pescoço. Ora, que pescoço? Havia, sim, um mastro branco de onde escorria um elemento viscoso; na ponta, um pedaço insistente de barbante alimentava um fogo inextinguível. Sulcos se firmavam em sua 'face' e havia uma pequena erupção, que poderia talvez chamar-se de 'boca', por onde regurgitava cera, que caía abundantemente sobre sua camisa branca.

Com a claridade da sala, viu figuras que sua mente de forma inútil tentava recusar compreender, homens pendurados, enforcados, por suas próprias gravatas, mas que se recusavam a morrer, embora implorassem por isso.

A estranha figura na cadeira parecia ser também um homem, um que não tinha uma cabeça, contudo tinha a vela, algo bom naquele ambiente tão escuro embora tão peculiarmente assustador, assustador de tal forma que o coração de Edson se tornou mais veloz que qualquer cavalo de corrida, o tanto que o assustava a estranha figura à sua frente.

Ele quis correr, mas, as pernas o traiam, então uma voz, crispada e em eco, falou-lhe claramente:

Tens somente até que a vela finde para que vivas.

Se ele não estava afim de enigmas, a pálida criatura, sombria, decidiu ser enigmática, somente para que se aumentasse mais o tom assustadoramente desconfortante.

Ocorreu-lhe que teve mais medo do que não compreendia do que fugir de cachorros ferozes e irritados durante a noite, como já fez, é que não sabia o que poderia haver dentro de tão obscura filosofia, proferida por tão sombria figura, que a despeito de trazer luz ao ambiente, à sua mente trazia trevas, muitas trevas! Então seus olhos se escureceram e depois se abriram.

Um belo dia, um rapaz chamado Edson, acordou de um sonho, no entanto, ele tinha certeza que aquele sonho, foi a coisa mais rea

l que já viveu, em toda a sua vida.

Docke Lima
Enviado por Docke Lima em 10/03/2026
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